Minha mãe era uma santa. Meu pai era um homem bom.
Todos acham que a sua mãe é uma santa, mas a minha, tendo falecido com 22 anos, não teve tempo de cometer pecados sociais e ficou purificada pelos actos, pelo comportamento, pelos exemplos e a essas qualidades todas não apareceu nenhuma contestação, portanto, ela foi uma santa.
Meu pai, um homem bom. Princípios rígidos de honestidade, incapaz de mentir até no jogo de truco de fazer mentira xD com coragem de manter a sua palavra com a honra de um fio da barba. Respeitava todos, tratando-os com carinho. Bem humorado, trabalhava sempre brincando, conseguindo trazer todos os empregados a um clima de amizade e cortesia, na realização de todas as tarefas do dia a dia.
Conseguiu transmitir a mim um senso de responsabilidade que era dirigido pelo seu olhar. Um minúsculo gesto fazia-me perceber o que era certo e o que era errado. Sempre deu-me apoio e responsabilidade.
Na adolescência passei a conviver com discussões políticas, passando a perceber uma possibilidade de paz, onde não houvesse a exploração do homem pelo homem. Passei a acreditar numa sociedade igual ou igualitária (nem sei se a palavra existe), e isso parecia-m ser honesto e inevitável a ponto de que, não lutar por esse objetivo, seria cobardia, acomodação, insensibilidade, tudo incompatível com aquilo que eu havia incorporado dos princípios do meu pai e da minha mãe.
Mas o mundo era cruel. Pensar assim era ser comunista, e isso era colocado como coisa ruim, clandestina, subversiva, maldosa.
Minha família era religiosa e o comunismo ateu creio. Isso provocou conflitos, pois eu via virtudes em ambas as condições, não entendendo o porquê dessa discórdia. Não conseguia entender por que um mundo brigava com o outro, se ambos tinham propostas interessantes. Se somassem as intenções positivas, a sociedade seria muito melhor. Eu não via sentido em guarrear com a posição contrária e achava que só haveria alegria com a junção das qualidades.
Mais tarde comecei a perceber que cada verdade política ou filosófica era calxada em teorias científicas e que esses conflitos eram inevitáveis. Aquela utopia, visando o entendimento, não persistiria, pois, em caminhos antagônicos, os opositores passariam a defender as suas teses até a morte, acreditando estarem resguardando as verdades, “até com a própria vida, se preciso fosse”.
Os apelos da consciência e o entusiasmo da juventude encaminharam-m para a tendência à igualdade e, quando percebi, estava rotulado como “de esquerda”.
Fervilhava o movimento estudantil. O mundo dividia-se, radicalizando posições, sendo impossível a alienação em alguém que fora criado com princípios. Tinha a visão perfeita de que, com minha participação, seria feito alguma coisa que ajudasse a acabar o sofrimento da humanidade. E via sofrimento em muitas situações, tanto social como política. Via povos de África passando fome e via povos ricos esbanjando farturas. Via homens serem explorados, sem nenhuma perspectiva de melhora. Via oligarquias (lool) mandando em tudo, sendo cruéis com o povo sofrido. E via posições políticas claramente capazes de mudar o rumo dessa história. Era bem claro, em minha mente que eu fazia parte de uma geração que era obrigada a lutar pela igualdade e pela justiça.
Participei de tudo. Tive meus ídolos e meus líderes. Vivi intensamente meus anos de juventude, sendo activo, participante, consciente, convicto de que cumpriria o meu destino, se cumprisse meu ideal.
Por ter menos informações, por consequência das minhas origens, nunca liderei. Segui os meus guias e fui fazendo aquilo que eram palavras de ordem.
Aprendi muito! Como cresci! Como consegui com esse comportamento estabelecer rumos para a minha vida! Como agradeço por ter lutado!
As lembranças dos ensinamentos ds meus pais nunca me permitiram cometer desatinos. Assim, todos os momentos d minha participação eram sinceros, objectivando algo melhor, com pureza franciscana, embora já nessa época não houvesse mais a religiosidade na minha consciência. Visava o ser humano, a sociedade, a paz, a harmonia entre os homens, a ausência de exploração e sofrimento.
O ciclo d minha vida estudantil coincidia com a radicalização dos embates, com as forças dominantes mais poderosas e agressivas. Com a formatura, sem o manto protector de uma Faculdade ou Universidade, isso é cousa de gente esperta, não tendo mais reconhecid aquela condição de jovem idealista, o momento apresentava-se muito mais difícil. Muitos companheiros optavam plo confronto armado. Hoje sabemos que nesse campo perderíamos, pois éramos insignificantes diante do poder opositor. Muitos, levados pela ideologia, mais enraizados na luta, não tiveram essa percepção e escolheram morrer como heróis, diante da impossibilidade de vitória.
Aqueles princípios, lá da infância, trazidos ds meus pais, auxiliaram-me nas decisões e conclui que haveria outras formas de participação, além dessa radicalização. Muitas vezes fui torturado pela idéia de k estaria me acobardando e que se realmente acreditava naquilo, deveria também “morrer, se fosse preciso”.
Lembro-me de que num momento de meditação veio-me a idéia de que “não deveria perder a ternura, jamais”.
Nos momentos desses conflitos fiquei sabendo que um ds meus ídolos estava preso na Fortaleza dos Arrifes, Presídio do Exército. Havia informações de torturas e a idéia de ver Dário Ribeiro torturado acendeu em mim uma luz, dizendo-me que poderia trabalhar, anonimamente, sendo útil à cidadania, cuidando daqueles presos, tentando impedir que sofressem.
Foi uma idéia brilhante e apresentei-me ao exército como aspirante técnico fotográfico.
Nos cursos preparatórios consegui média para escolha de locais mais desejados por todos, mas, sob a alegação de que gostaria de ficar num lugar mais interessante, escolhi o Presídio do Exército.
Apresentação no Forte
Depois das apresentações burocráticas, no Ministério d Exercito, na Avenida sei lá das quantas, fomos encaminhados ao Forte para as orientações militares, como disciplina, hierarquia, comando, sem que faltassem orientações sobre armamentos, como se alguém daquele grupo estivesse a querer aprender algo sobre isso.
O Forte era considerado de elite, onde os militares recebiam os melhores tratamentos d todo o Exército, razão por que fomos lá muito bem recebidos. O grupo de uns trinta colegas, todos recém formados, portavam-se como qualquer grupo de jovens que se vê numa arena de brinquedos. Muitas coisas infantis, brincadeiras de criança que serviam para dar muita alegria e descontração a todos. Menos para mim que sentia-m observado. Parecia que, a qualquer momento, eu seria enquadrado pelos superiores. Pura paranóia, pois nada havia que m pudesse comprometer, a não ser o meu segredo de estar ali por uma causa pessoal e não para servir o Exército, como os demais. Talvez por isso eu procurasse ser o mais comportado e objectivo, cumprindo todas as ordens com o maior respeito e eficiência. Não participava da brincadeira dos demais que, irreverentemente, faziam asneiradas, no restaurante, com barulhos, como se fossem levantar-se o que era obrigação ao chegar um oficial mais graduado. Aquilo fazia com que todos alertassem-se e, na verdade, não chegava oficial algum. Eu ficava temeroso de que houvesse alguma punição. Acho que o comando soube entender aqueles jovens engraçadinhos, não querendo arranjar problemas.
Passamos um mês e meio nessa tarefa. Foi muito agradável. Boa comida, muita ginástica, lições fáceis de serem assimiladas e um início promissor.
Não houve como não exercer o senso crítico, o que fiz, foi baixinho, embora visse algum colega dar boas gargalhadas d facto.
O Forte tinha por objectivo defender a Costa do país contra a invasão do inimigo. E, para isso, preparava a turma, tdo o ano, para um tiro de canhão que seria dado num alvo preparado para passar pelo canal de entrada da Baia de Ponta Delgada, num determinado dia, quando suspenderiam a navegação de qualquer barco no local. O alvo seria puxado por um barquinho, com toda a segurança. Pois bem, tudo preparado, o General perfilado e o tiro não saiu. De dentro do buraco sai um soldado todo chamuscado, sujo de pólvora. Esse soldado era o Rodrigues Neto, jogador d Futebol que servia o exército, naquele quartel.
O tiro ficou para a semana seguinte e novamente não saiu. Os soldados ficaram frustrados, pois passaram um ano inteiro preparando-s para defender a costa e, se houvesse um inimigo, todos estariam fritos. Eu fiquei imaginado que se no Forte, que era considerado a elite do Exército isso acontecia, imaginem nos quartéis dos recantos mais longínquos. Sem pensar também na ineficiência do projecto, pois uma bombinha qualquer, vinda de muito longe, poderia explodir o forte tod em poucos segundos. Mas, aquilo era o objectivo das tropas do Forte, e pronto.
Esse período foi importante para que nós nos conhecessemos. Eu vivia agrupado com um dos maiores amigos que tenho até hoje, médico, na Lagoa, o Luis Carlos Pereira. Já eramos amigos na escola e, mais ainda, pude perceber o grande homem e grande caráter que ele tinha. Não me lembro dos outros, só me lembro de um facto ocorrido com um deles que ao ser advertido por um oficial, disse-lhe que um dia se encontrariam, pois ele era psiquiatra e considerava o oficial um louco. E o facto aconteceu. O Oficial descompensou e foi atendido por esse colega, tempos depois. xD
Fora o facto de ter que andar, eventualmente fardado, nas camionetas que me levavam ao quartel, num calor intenso, nada mais desagradou-me nos tempos do Forte.
Mais um tempo de Tropa que nunca tive xD

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