Ela estava sentada no terraço quando entregaram-lhe a "carta". Ai que emoção! Naquele tempo a correspondência fazia-se assim, via correio, não havia telefones muito menos via net. Pelas cores do envelope, mesmo antes de abrir, já sabia que era dele. Do seu amado. O fim do ano aproximava-se, era chegada a hora dele vir ao encontro dela.. moravam longe um do outro... Tudo estava arranjado, depois de muita relutância, a mãe dela concordou em hospedá-lo. Afinal, o rapaz devia gostar mesmo da filha, naqueles meses todos, quantas cartas tinham trocado.
Contente, abriu o envelope. De imediato estranhou a letra, de hábito tão bonita, ali meio desleixada. E leu:
“Querida, não podes imaginar a minha tristeza ao escrever essas linhas. Nem sei como começar, tão atordoado sinto-m. Tudo estava acertado para que eu fosse ter contigo., só pra te ver. sabes muito bem. meu pai ficou de comprar as passagens e quando entregou-me a mim os bilhetes, para minha grande surpresa e desilusão, vi que eram... para a Europa! Ah! Essa Europa que eu tanto queria conhecer, mas não agora! Quando recebers esta carta já estarei no navio. Ele vai parar ai no dia 28 de dezembro. Será que podias ir até lá?...”
Ela parou a leitura e pensou na data: 28 de janeiro. Mas era aquele dia! O mesmo em que lia a carta! Ela ali no terraço e ele lá no porto, esperando em vão... Nada mais a fazer. Tudo perdido. Sonhos e ilusões foram-se por água abaixo, pro fundo do mar... E ela chorou, como chorou!
Alguns dias depois, teve uma reação inesperada. Pegou todas as cartas do amado e riscou um fósforo. Bem devagar, de uma em uma, queimou tudo, enquanto lágrimas rolavam por sua face.
Esta história de amor não será a minha..

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