–Neste final de semana, um de nós morrerá.
Assim disse João Cogumelo aos seus companheiros de farra numa noite de sexta-feira.
–Uau! Agora és profeta? E quem será a vítima? perguntou um deles.
–É verdade. Essa noite, tive um sonho assustador. Tudo estava confuso. Parecia um velório. As pessoas desfilavam em torno de um morto, e comentavam baixinho: “Foi terrível... É uma pena... Agora são seis menos um”.
Eu não tinha noção de quem estava no caixão, mas era um de nós. Os visitantes passavam por mim e não conseguia ver quem estava deitad no caixão. Tornei-me invisível diante deles. Ao conduzirem o caixão até o cemitério, acordei apavorado.
Seis menos um.
João Cogumelo e os seus amigos formavam uma turma de seis que sempre se reuniam para brincar/estár e frequentar festas, tinha vezes que até juntamente com as suas respectivas esposas e filhos, outras vezes sozinhos num lugar só pra eles. Por causa dessa união entre eles, ficaram conhecidos como Os Seis Mosqueteiros.
Sábado de manhã, os amigos programaram ir ao clube, tipo campo de férias, mas aberto todo o ano. Lá tomaram banho de piscina, beberam e divertiram-se bastante. A morte prenunciada de um deles já era assunto de mesa de bar, passado e esquecido. Mas havia um clima de apreensão disfarçado nas falas de João Cogumelo. Nessa noite não conseguira dormir.
Domingo. Praia. Jogo de futebol na areia, surf, camarão e lagosta na barraca do Sr. João Batata. Cachaça, cerveja, banho no mar... Um dia completamente divertido.
Ao final da tarde, um comentário de alívio:
–Então João Cogumelo, estamos salvos da tua profecia mortal.
–O dia ainda não acabou.
Sim, mas estamos todos alegres e saudáveis até agora.
Cogumelo acreditava cegamente no seu sonho, e que um deles haveria de morrer nesse dia último da semana. Analisou cuidadosamente cada um dos seus companheiros e também a si mesmo e nada notava qualquer sinal de anormalidade. Todos estavam perfeitamente saudáveis, e isso o intrigava profundamente. Não queria entender que tivera apenas um sonho, um sonho agouirento como ocorre a qualquer um. A sua principal preocupação era qual deles iria perecer.
–Relaxa, amigo! Está muito tenso. Isso faz-te mal à saúde. Próxima semana humm, estaremos todos aqui novamente.
Sorriram e brincaram enquanto preparavam-se para o retorno. As crianças pediam mais um tempo, e eles aproveitaram para tomar a ultima bebida, até que decidiram regressar.
Mas Cogumelo não conseguiu relaxar. Ana Espinafre estava de olho no marido caladão que não tirava os olhos do relógio que marcava onze e meia da noite. “Só fico tranquilo quando este dia fechar”. Ele disse a Espinafre. Pegou no telefone e ligou para cada um dos amigos. Todos estavam bem, sem novidades. Cogumelo ficou mais sossegado. Só faltavam vinte minutos para o rodar do dia para o dia seguinte. Tomou um cafezinho, fumou um cigarro... Espinafre, já cansada, reparou no seu sossego deu-lhe um beijo e convidou-o para se recolherem. “Só depois da meia-noite”. Ele respondeu. Então ela foi para o quarto sozinha.
O estado de tensão de Cogumelo aumentava ao passo que o domingo agonizava. Aqueles últimos minutos provocavam-lhe um calor estonteante e uma incômoda dor de cabeça que começava a molestá-lo. Mais uma vez olhou para o relógio. Onze e quarenta e cinco da noite. Logo depois, dirigiu-se é casa de banho.
Havia muita gente no velório. As pessoas desfilavam em torno do morto, e comentavam baixinho: “É uma pena... Agora são seis menos um”. Os amigos de João Cogumelo, agoniados e cabisbaixos, prestavam-lhe a última homenagem.

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