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quinta-feira, 11 de março de 2010

Zé Pelintra

Lá pros confins da Lagoa do Fogo, ao norte dos Remédios, vivia um velho lavrador, que nem a sua idade sabia sequer, numa casita de madeira.
Viúvo, e sem filhos, morava sozinho com o seu canito, Zé Pilintra, como ele o chamava.
Este desaprendera a contar o tempo. Não tinha noção dos dias da semana nem do ano em que estava vivendo.
Também não tinha ideia do valor do dinheiro, pois não possuía nenhum. Todas as mercadorias eram negociadas com os vizinhos, na forma de troca, pão por batata, couve por vinagre lol
Roupas e botinhas eram tão antigas que deveriam ter pertencido a alguém da família.
O velho homem cuidava da horta, feijão, abóbora e diversos legumes... havia de tudo
Água não faltava nas nascentes e pequens riachos.
Uma vaquinha leiteira fornecia o leite e, de vez em quando, ele curava e até fazia o seu queijim.
Galos e galinhas que povoavam o terreiro alimentavam-se dos tenros milhos vindos do terreno, no pequeno curral havia sempre leitões para a banha e a linguiça defumada na fumaceira do velho fogão a lenha lol
O velho levantava-se de madrugada, ao 1º cantar do galo. Ainda no escuro começava a sua lida, que interrompia às dez da manhã, quando, então, voltava para casa e preparava o almoço.
Depois de comer, deitava-se na rede e dormia até as duas da tarde, mais cousa menos cousa xD
Voltava aos seus afazeres até pressentir que as sombras começavam a se alongar ao seu redor, fazendo-se tarde já.
Calma e lentamente o velho dirigia-se à centenária figueira no meio do pasto e, embaixo da sua copa, sentava-se num banco tosco, feito por ele mesmo.
Todos os dias em que não chovia, ele lá ficava, sentado, e ficava-se com a sua filosofia.. ele era o dono do sol!
Tudo ele calculava pelo sol!
No seu primitivismo inventou um simples relógio para marcar o tempo.
Não tinha ciência de que há milhares de anos as grandes civilizações, hoje em dia ..desaparecidas, como os incas, maias e astecas, já usavam tais instrumentos de exactidão.. Os famosos relógios de sol.
Pela posição das sombras ele sabia a hora de ir almoçar, de voltar ao serviço e, principalmente, a hora de ir para a figueira.
Sentado, apreciava o cair do sol no horizonte, deixando as sombras cada vez mais extensas e escuras.
O velho não sabia ler nem escrever. Mas a exactidão dos seus simples pensamentos reflectidos em relação à luz e à sombra era inacreditável.
Às vezes, ficava de costas para o sol, abria os braços ...em forma de cruz e observava a figura projectada no chão, formando o desenho de Cristo crucificado.
Nesses momentos ele rezava as orações que sabia, pedindo a Deus para que nunca mandasse o sol embora, pois este lhe pertencia lol
E continuava assim até a cruz desaparecer na noite, quando, contente por mais um dia de sol, retornava à sua casita.
Acendia o lampião a gasolina, comia as sobras do almoço, pegava na velha viola e ia para a rede meditar e dedilhar..lol..algumas melodias tristes do seu tempo de rapaz.
Colocava a viola no chão e ficava olhando a lua.
O velho não gostava muito das luas.
No seu entender, cada quarto de lua era uma lua diferente.
Uma grande e cheia, outra, menor e redonda. E havia aquela meia metade de queijo, como ele dizia.
A que ele mais gostava era a cheia.
Naquelas noites de lua cheia, claras como o dia, ele pegava na sua espingarda e cartucheira e ia caçar coelhos e raposas que lhe roubavam o milho.
Nessas divagações, as estrelas e luas eram filhas do sol.
Quando o brilhante astro colocava-se atrás das montanhas, na certa que o veim estava indo descansar, jantar e dormir até o dia seguinte.
Suas filhas tomavam conta da noite...
Durante as tempestades acompanhadas de raios e trovões, sem dúvida era a ira do sol brigando com as suas filhas desobedientes lol
O velho não tinha o sol como um deus, mas sim como um idolatrado companheiro que regia toda a sua vida, plantações e criações. Por isso era seu! e de mais ninguém!
O lavrador era sábio, convicto ds seus pensamentos, assim era feliz e não sabia!
O tempo passou com o planeta Terra fazendo o seu ciclo de translação e rotação em volta ao sol, mecanismo do universo que o velho não sabia que existia.
Certo dia, não eram três horas da tarde, segundo os seus cálculos, sem saber a razão ele resolveu sentar-se n seu banco, debaixo da figueira.
Pela primeira vez sentiu aquela estranha vontade e começou a olhar em direcção ao sol ficou meio assustado, pois considerando-se o tempo em que estava lá, as sombras deveriam estar noutras posições.
Mas nada se mexia.
Olhou ao redor e não reconheceu o lugar onde vivia.
Passaram-se horas e horas e o sol continuava no mesmo lugar.
Cansado daquela pasmaceira, o velho resolveu ir até ao sol e perguntar o que estava acontecendo.
Levantou-se com disposição incomum e começou a caminhar em passos largos em direcção ao sol.
Andou léguas e mais léguas pelas pastagens verdes, azuis ..cor-de-rosas --' e nada de se aproximar daquela estrela malvada.
De repente começou a escurecer.
Ficou noite e, no lugar do sol, surgiu uma estrela bem grande, de um azul jamais visto.
Só pode ser a filha mais velha do sol, concluiu o velho!
Pensando nessas conjecturas, continuou caminhando na escuridão em direcção à estrela.
Amanheceu outro dia e o sol lá estava, radiante, à sua espera traves.
Sem mostrar cansaço, o velho continuou a caminhada com os mesmos passos determinados.
Enquanto isso, lá no sítio, os poucos vizinhos estranharam a falta de fumaça na chaminé. E, por mais que procurassem, não encontraram o velho, trabalhando na horta.
Resolveram verificar o que estava acontecendo.
Chamaram pelo seu nome e nem o cachorro respondeu.
Foi quando escutaram latidos vindos da figueira.
Correram até lá e depararam-se com o Velho morto, estendido junto ao banco, estendido ao comprido mesmo
Zé Pilintra estava de guarda, afastando alguns corvos que sobrevoavam o local.
Comovidos, os vizinhos rezaram alguns padre-nossos e ave-marias, abriram uma cova funda sob a figueira e enterraram o velho lavrador, ali mesmo.
Bateram bem a terra e atiraram diversas pedras em cima do túmulo, para certificarem que não voltava, ou mera tradiçao quem sabe lol
Por último, serraram dois grandes galhos da figueira e fizeram uma cruz, que fincaram na cabeceira do falecido.
Todas as tardes, no crepúsculo, a sombra estendida da cruz projecta-se em cima do banco onde sentava o velho sonhador.

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